Já ouvi tanto que faltam investimentos em cultura no Brasil, que precisamos ampliar o acesso à informação, que o Brasil não vai pra frente porque as pessoas, por exemplo, só assistem à TV e a TV só passa Big Brother e que é um pecado pessoas não saberem quem é Manoel de Barros ou Antonio Cicero ou Manuel Bandeira.
Aí o MinC aprova a captação de verba de um projeto que prevê a publicação diária de poesia na internet e parte da população fica indignada, como se isso fosse mau uso do dinheiro público, ou ‘do meu, do seu, do nosso dinheiro’, como gostam de sublinhar. Não dá pra entender, parece a Revolta da Vacina.
Indignação ignorante e retórica. Se é para provar que você é antenado e fiscaliza o seu dinheiro, quedê o grito sobre os projetos de governo que foram anunciados e não aconteceram, como os das 600 salas de cinema (em quatro anos, apenas seis foram inauguradas) e bibliotecas públicas que também não foram inauguradas por incompetência administrativa (as verbas até foram repassadas)? Quedê o grito quando a houve diminuição da verba para o MinC em JANEIRO de 2011?
Algumas questões:
1. A verba já era destinada à cultura. Mesmo que fosse o caso, a verba não foi desviada da saúde, nem da educação – e os professores, com ou sem projeto de poesia na internet, continuam ganhando salário de miséria – para financiar projetos culturais. A verba deste ano para o MinC é de R$1,6 bilhão. Espero que os antenados também fiscalizem os outros projetos beneficiados com o resto do montante.
2. Se o problema for a quantia. Por que os indignados (cariocas) não gritaram há algumas semanas, quando Maria Rita foi capa do Segundo Caderno anunciando que cantaria o repertório da mãe e que, para isso, captaria R$ 2.195.800 em patrocínio de empresas para cinco apresentações da série “Redescobrir Elis”? E Erasmo, Marisa, Wanderlea, fizeram o mesmo, e com razão.
3. Se o problema for poesia. Esse tipo de prática é comum tanto no audiovisual, quanto na organização de festivais de música. Cinema e música pode, poesia não? “Ao mesmo tempo em que diminuiu a verba para estímulo direto à cultura pelo MinC, algumas instituições vinculadas, como a Agência Nacional de Cinema (Ancine), tiveram aumento orçamentário – o da Ancine saltou de R$ 86,2 milhões em 2010 para R$ 96,6 milhões em 2011.” Fonte aqui.
4. Se o problema for ‘vídeos para internet’. O velho problema dos micreiros. Não acredito que Andrucha mandaria Maribéth gravar os vídeos em seu quarto com uma webcam. Ainda assim, seriam 365 vídeos consecutivos. Dividindo a conta, daria cerca de 3.561 reais por episódio. Qualquer episódio para TV é feito com o dobro ou o triplo disso. E incluímos aí realitys shows (sem roteiro, sem ensaio, sem pesquisa, mas com trabalho primoroso de edição) a que todos nos assistimos de vez em quando.
5. Se o problema for a internet. Procure saber sobre o investimento que as programadoras, emissoras de TV e gigantes de Telecom estão alocando para projetos de ‘Novas Mídias’. Para aqueles que pregam – quando lhes é conveniente – o acesso à informação, o alcance da internet no Brasil é de 73,9 milhões de pessoas.
Talvez o problema tenha sido causado pelo mau jornalismo, tanto pelo tom polêmico das manchetes – que davam margem à interpretação de que Maribéth embolsaria R$1,3 milhão -, quanto pela ausência de voz da classe artística. Quedê os artistas que defendem a remuneração do trabalho dos criadores nas campanhas anti-pirataria? Será que eles também só sabem se manifestar quando são levados pela maré do senso comum?
E o Facebook criou uma geração de oportunistas. Um fato acaba de acontecer e as pessoas ficam afobadas para comentar sem pesquisar qualquer coisa. Aí tem gente de todos os tipos: o antenado, o hype, o bon vivant e o pior de todos, aquele que se acha sempre engraçado.
Se você ainda desconfia de que, mesmo com Andrucha e Maribéth participando, esse dinheiro está sendo mal investido, então eu realmente não sei o que fazer com a verba de cultura do país.