Tomei um susto quando li a crítica do show da Banda Eva, escrita por Nina Lemos, na Folha de S.Paulo. Não sou fã do grupo, mas fiquei incomodado com a retórica. Avaliar o show da banda como ruim é de total direito dela, mas ainda não entendi os motivos que a levaram a tal conclusão.

Minhas perguntas e comentários:
- O que seria, em 2011, “a cena de MPB considerada ‘séria’”? (aspas da autora)
- O “Sim,” que precede “o encontro aconteceu anteontem para convidados e alguns fãs da banda” antevê um suposto espanto do leitor? Por quê?
- “Estaria o grupo tentando se aproximar de outro patamar da MPB com esse show?”. Não concordo com o uso de “patamar”, sugere movimento vertical. Mesmo que fosse o caso, o grupo poderia estar tentando se aproximar – horizontalmente – de outros segmentos musicais, assim como Caetano fez quando se aproximou da Banda Cê;
- Acho deselegante a grafia do termo “axezeiro”, mesmo que ele encontre similares em outras vertentes musicais (metaleiro, roqueiro). De qualquer forma, “líder axezeiro” é totalmente irrelevante no contexto. A identificação ‘vocalista’ basta;
- Há uma interpretação arrogante do verbo “aprender” dito por Saulo. Se Caetano – que é mais respeitado por esta crítica que, ironicamente, desconhece a ‘axé music’ [que ele mesmo ajudou a divulgar] – dissesse que gosta de tocar a aprender com a Maria Gadú, de quem ele gosta, talvez o termo não teria sido interpretado da forma desconfiada e provocativa;
- “Maria Gadú pareceu mesmo gostar do som.” Será que ela não gostou? Eu, jornalista recém-formado, tentaria sanar essa dúvida conveniente perguntando à cantora. Ou colocaria de outra forma, sei lá, algo como “Maria Gadú estava animada no palco” soaria mais bobo e menos arrogante;
- “Na busca por prestígio, a banda Eva (…)”. Não sei a que busca por prestígio a jornalista se refere. O grupo está na estrada desde 1980 e tem carreira sólida (não é à toa que continuam ganhando dinheiro, como a jornalista gosta de enfatizar) mesmo com a saída de Ivete Sangalo, sua vocalista mais conhecida (e nem por isso mais relevante). O grupo já contou com Luis Caldas e Daniela Mercury, Ricardo Chaves e Durval Lelys em sua formação;
- O que seriam as “músicas mais ‘cabeças’ (aspas da autora), como Novos Baianos e Gilberto Gil”?
- Também acho que as ideias de “cantar com verdade”, “energia de artista, também conhecida como talento real” e “alma de artista” atribuídas à participação de Nando Reis são obsoletas. A jornalista precisa estudar História da Arte e Estética.
- O baile é “chato e sem convencer” (Quem? De quê?)
- “Tem coisas que não há dinheiro que compre, alma de artista por exemplo.” Ela realmente está preocupada com o dinheiro que o grupo fatura e com o pagamento dos convidados. O estranho seria convidar duas pessoas que vivem de música e não pagar cachê pelas apresentações. E, novamente, essa ideia de “alma de artista” é romântica demais para o nosso tempo.
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O vídeo não está disponível no YouTube, a cena foi transmitida ao vivo pela GloboNews no carnaval deste ano. Era Gilberto Gil – considerado “cabeça” – homenageando Durval Lelys, que hoje é integrante do Asa de Águia, durante a passagem do trio pelo Camarote Expresso 2222.
“Sua contribuição para o Carnaval começou faz tempo. Você foi um dos responsáveis por popularizar a música, por fazer o trio-elétriuco se tornar popular. Este ano, com essa homenagem que você presta aos grandes guitarristas da música baiana, você mostra que acaba de se tornar um deles. Ainda melhor que Dodô e Osmar.”
Gilberto Gil em homenagem a Durval Lelys
O inverso também aconteceu: é com essa calma que eu pretendo trabalhar.
Não sei onde a jornalista estava nesta hora, não devia ser atrás do Ilê. Espero que a jornalista pesquise a relevância da guitarra elétrica no carnaval da Bahia, a evolução dos trios elétricos e a importância de gente como Armandinho, Dodô e Osmar. Mais do que isso, que ela não deixe que seus preconceitos e sua ignorância influenciem sua escrita.